Muçulmanos escravizados influenciaram arquitetura brasileira

Muxarabis, treliças e até azulejos são alguns dos elementos de origem árabe que foram introduzidos no Brasil por influência dos malês



Talvez você já tenha ouvido o termo “malês” na época da escola, ao estudar o levante de escravizados africanos, de maioria muçulmana, que ocorreu em 1835 na Bahia e ficou conhecido como “Revolta dos Malês”. Os malês — termo que, na língua iorubá, significa “muçulmano” — eram alfabetizados (bilíngues, em muitos casos), e tinham domínio sobre a matemática. E você sabia que eles tiveram grande influência sobre a arquitetura brasileira? É por conta deles, por exemplo, que a sala de estar tem este nome no Brasil. 


A influência africana e a evolução da casa brasileira a partir das mudanças históricas da sociedade é tema de pesquisa para a arquiteta e urbanista Miriam Carla do Nascimento Dias. A evolução da cozinha, por exemplo, é um dos grandes focos da pesquisa da arquiteta. Segundo Miriam, a história do cômodo está diretamente ligada à abolição da escravidão.


Quais foram as principais contribuições dos malês para a arquitetura brasileira?


"Por serem muçulmanos, eles trouxeram para o Brasil uma forte influência da cultura árabe, em que eram instruídos. Apesar de, na época, haver uma proibição legal para qualquer manifestação religiosa que não fosse católica, os malês alforriados tinham por hábito ter em suas casas um cômodo grande, onde recebiam suas visitas para fazerem suas orações que eram chamadas salah ou salat. Aquele espaço chamou-se “sala”, em português do Brasil.




Elementos vazados estão entre os legados dos malês (Foto: Josivan Rodrigues)


"Os malês também trouxeram consigo materiais e técnicas construtivas do mundo árabe utilizadas até os dias de hoje, caso dos muxarabis, das venezianas e das treliças, que são elementos vazados aplicados pelos muçulmanos para que as mulheres, que não podiam andar entre os homens, pudessem ver o mundo externo sem sair de casa e sem serem vistas. No Brasil, onde não se tem esse costume, tais elementos são ainda utilizados para aproveitamento da ventilação e iluminação natural sem a perda da privacidade. Duas técnicas construtivas importantes também foram trazidas por esses imigrantes africanos escravizados: a da confecção de azulejos e das casas geminadas."


Como a evolução da cozinha está relacionada às transformações históricas da sociedade?


"[No período pré-abolição da escravidão] A cozinha era o espaço de preparo da comida, porém fazia par com o banheiro como os locais mais sujos da casa. Era um espaço externo à casa, pois exigia um trabalho muito pesado e envolvia muito mais sujeira do que hoje, considerando a presença de fuligem da madeira queimada, gordura por toda parte e o compartilhamento do espaço com animais. Com a abolição, começou-se a pensar em formas de modernizar a cozinha para facilitar a vida das mulheres mais ricas, que não estavam acostumadas com aquele tipo de serviço pesado."


"Foi aí que a cozinha começou a chegar mais perto da casa principal. O uso da chaminé possibilitou introduzir o espaço de vez em um cômodo da casa, tornando-o consideravelmente mais limpo em comparação ao espaço anterior, agora sem o acesso livre dos animais. A tecnologia árabe dos azulejos trazida pelos escravizados malês também mostrou-se muito eficiente na impermeabilização da cozinha, que agora era um dos cômodos da casa que sempre tinha muito contato com água. O piso de cimento liso ajudava a manter o espaço em ordem."


Este é um tema estudado e pesquisado na arquitetura brasileira, na sua opinião?


"Não. Há uma série de edificações na África, por exemplo, que têm uma característica ímpar. Cidades inteiras com uma riqueza de detalhes que não são divulgadas. Eu tenho a impressão de que, na história do Brasil, houve uma intenção de se esconder aquilo que foi trazido pelos imigrantes africanos. Recentemente, o CAU [Conselho de Arquitetura e Urbanismo] reconheceu um ex-escravo como o primeiro arquiteto paulista, e ninguém conhece a história dele [Joaquim Pinto de Oliveira, chamado de Tebas]. Ele fez o frontispício da Igreja da Sé, e foi o primeiro a fazer um aqueduto para transportar água para o centro de São Paulo. Mas, como ele era escravo, tentaram apagar a história dele.


Leia também: http://www.centroimamhussein.com/post/arquitetura-o-brasil-islamico-que-poucos-conhecem


Fonte: https://casavogue.globo.com/Arquitetura/Casas/noticia/2020/03/muculmanos-escravizados-influenciaram-arquitetura-brasileira-explica-pesquisadora.html

971 visualizações1 comentário
  • Twitter Clean
  • w-facebook
  • w-youtube
  • w-flickr