O Terceiro Imam-Al-Hussein “Sayyed Ashuhadá (A.S.)"


O Terceiro Imam-Al-Hussein “Sayyed Ashuhadá (A.S.)"

O Imam Al-Hussein (A.S.), Sayyed Ashuhadá, ou seja, “Senhor dos Mártires” é o segundo filho do Imam Ali (A.S.) e de Fátima (A.S.), filha do Profeta (S.A.A.S.). Nasceu no ano 4 Hijrita (625 a.D.) e, depois da morte de seu irmão, o Imam Al-Hassan (A.S.), recebeu o Imamato pela Vontade de Deus, e conforme o designado pelo seu avô, o Profeta Mohammad (S.A.A.S.). Considera-se de dez anos o tempo de duração de seu Imamato, vividos e marcados pelo sofrimento, exceto nos últimos seis meses da época de Muawiya, quando os símbolos religiosos foram repostos em seus devidos lugares depois de tantas libertinagens ocorridas com desrespeito àquilo que era determinado por Deus e desejado pelo Profeta (S.A.A.S.). Muawiya havia feito de tudo e recorrido a todos os meios para denegrir e até mesmo apagar o nome do Imam Ali (A.S.) e de seus familiares, preparando o caminho para que seu filho Yazid o sucedesse, enviando reforços nesse sentido para vencer a resistência dos que se colocavam contra esta sucessão, os quais conheciam o mau gênio de Yazid, dominado pelos vícios da bebida e da luxúria, e esta oposição não escapou ao ódio e às perseguições de Muawiya, que lhes impingiu fortes castigos.

O Imam Al-Hussein (A.S.) viveu todo esse período triste, suportando todos os males que lhe foram causados por Muawiya e seus aliados, até meados do ano 60 Hijrita (680 a.D.), quando Muawiya morreu e lhe sucedeu seu filho Yazid. O pacto era um preceito árabe, envolvendo uma série de fatores e valores, tais quais, a monarquia e o principado (emirado), ou, o que se lhes assemelhasse, apresentando-se os grandes senhores e chefes de clãs, a fim de prestarem juramento de lealdade ao pacto com os votos de obediência ao rei ou ao príncipe, e, caso agissem de forma contrária ou quebrarem os acordos, era considerado alta traição e ato vergonhoso, pois o pacto no tempo do Profeta Mohammad (S.A.A.S.) era concebido e utilizado, o que é confirmado em sua biografia. Isto, naturalmente, era feito de forma espontânea, sem coação, obrigatoriedade ou imposição. E Muawiya recebeu o pacto da nobreza e chefes de clãs, os quais lhe juraram lealdade e lhe deram voto de confiança, sem porém, obrigar o Imam Al-Hussein (A.S.) a isso, e tampouco para com seu filho Yazid, a quem recomendou não molestá-lo neste sentido, já que Al-Hussein (A.S.) não lhe jurara lealdade em pacto algum, e Muawiya tinha muita experiência nestas questões e enxergava longe, pois ele tinha uma percepção aguçada sobre as consequências de seus atos. Yazid, entretanto, um indivíduo egoísta, vaidoso, megalomaníaco e dominado pelos vícios, desrespeitou as recomendações de seu pai e ordenou ao Governador de Medina que obrigasse o Imam Al-Hussein (A.S.) a dar o seu reconhecimento e jurar obediência a ele na qualidade de Califa, e, caso contrário, que lhe trouxesse sua cabeça.

Recebida a ordem, o Governador transmitiu-a ao Imam Al-Hussein (A.S.), o qual lhe pediu um tempo para decidir, saindo em seguida de Medina, naquela mesma noite, rumo à Mecca, onde se refugiou na Caaba, lugar de segurança, sagrado para os muçulmanos. Este fato ocorreu em fins do mês de Rajab, início de Chaabán do ano 60 Hijrita (628 a.D.), quando o Imam Al-Hussein (A.S.) permaneceu lá durante cerca de quatro meses, porém, a notícia de sua estada naquela cidade foi se propagando gradativamente, até tornar-se pública no mundo islâmico. E com isso, o Imam Al-Hussein (A.S.) recebeu o apoio e a solidariedade de todos os que conheciam e abominavam as perseguições e opressões praticadas por Muawiya e seu filho Yazid.

Isto de um lado, de outro as várias cartas vindas do Iraque, em particular de Kufa, que eram dirigidas ao Imam Al-Hussein (A.S.), pedindo-lhe que fosse para o Iraque e se tornasse seu líder e comandante na luta contra as maldades e prepotências de Yazid Ibn Muawiya, que, naturalmente, sentiu o perigo que pairava sobre si.

O Imam Al-Hussein (A.S.) permaneceu em Mecca até a época da Peregrinação daquele ano, quando inúmeros muçulmanos vinham de toda parte cumprir a sua obrigação religiosa. Foi então que o Imam Al-Hussein (A.S.) ficou sabendo que entre os peregrinos se encontravam alguns mercenários de Yazid, disfarçados e armados, tendo suas armas debaixo de suas indumentárias próprias para o ato da circulação ao redor da Caaba, a fim de matá-lo enquanto ele cumpria o ritual religioso. Sem hesistar, o Imam Al-Hussein (A.S.) decidiu deixar Mecca, seguindo rumo ao Iraque, antes, porém, ele discursou para o povo muçulmano, e em breves palavras, comunicou-os de sua viagem para Kufa, os informando que ele previa ser assassinado, e por isso lhes pedia ajuda e colaboração em seus objetivos sagrados, e não negligenciando o seu triunfo e o triunfo do Islam, que é a religião da retidão e de Deus. E na madrugada daquele mesmo dia, tomou a rota que levava ao Iraque, acompanhado de sua família, parentes, amigos e seguidores xiitas.

O Imam Al-Hussein (A.S.) decidiu não reconhecer os poderes de Yazid, mesmo sabendo que isto lhe custaria a própria vida. Inclusive, ele tinha conhecimento de que o exército omíada era numeroso e muito bem equipado, e mais, que tinha o apoio do povo, em particular dos iraquianos.

Contudo, um grupo de seu relacionamento lembrou-lhe dos perigos da situação reinante nesta sua viagem, resultado do levante que ele acendeu, porém, Al-Hussein (A.S.) lhes respondeu: “Eu jamais jurarei lealdade em nenhum pacto com Yazid e tampouco apoiarei um governo injusto e opressor! Além disso, estou ciente que eles tencionam me matar onde eu esteja. E se estou saindo desta região honrada é porque não quero que isto ocorra neste local sagrado, que é a Casa Sagrada de Deus, caso contrário, perecerão as proibições de Deus Altíssimo com o derramamento do meu sangue!”

E o Imam (A.S.) seguiu viagem para o Iraque, quando durante o trajeto, veio-lhe a notícia do assassinato de seu mensageiro e o companheiro dele, os quais tinham sido enviados à cidade de Kufa, cuja ordem partiu de Obaidallah Ibn Ziad, governador do Iraque, nomeado por Yazid Ibn Muawiya, sendo que, após a execução de ambos, o governador ordenou que amarrassem seus pés com cordas e seus cadáveres fossem arrastados pelas ruas e vielas da cidade.

A cidade de Kufa e todos os seus arredores estavam sob vigilância dos inimigos, que esperavam a chegada do Imam Al-Hussein (A.S.), tudo indicando que ele e os seus companheiros seriam mortos. E, Al-Hussein (A.S.), mesmo prevendo que sua morte era iminente, prosseguiu em sua marcha.

O exército omíada cercou o Imam Al-Hussein (A.S.) a 70 quilômetros de Kufa, numa região denominada Karbala, e, aos poucos, o cerco foi se apertando e o exército inimigo aumentando, ficando assim, o Imam e a sua gente, cercados por todos os lados por cerca de trinta mil soldados.

Nesses dias, o Imam Al-Hussein (A.S.) tentou definir a sua situação. Afastou o que pôde de seus soldados e reuniu seus amigos, e num rápido discurso disse: “Eles só querem a minha morte. Eu os libero do juramento de obediência e lealdade a mim, e assim sendo, aquele que desejar fugir que o faça na escuridão da noite e salve sua vida da tragédia que se abateu sobre nós”. Depois, ordenou que todas as tochas fossem apagadas, e grande parte dos que o acompanhavam se dispersou e fugiu na calada da noite escura, exatamente aqueles que o acompanhavam por interesses materiais, permanecendo os que amavam o Direito e seguiam a Verdade, cujo número era de apenas quarenta homens aproximadamente, mais alguns da família de Bani Hachem.

E pela segunda vez, o Imam Al-Hussein (A.S.) reuniu seus companheiros e falou-lhes em oração: “Senhor nosso, eu Vos louvo pelo que nos agraciaste com a Profecia, e nos fizeste conhecer o Alcorão, e nos privilegiaste com a jurisprudência, e fizeste com que tenhamos os sentidos da audição e da visão, e nos tornaste úteis. Faze de nós, ó Senhor, dentre os agraciados! E depois, eu não conheci amigos mais fiéis e mais leais do que os meus companheiros que se encontram comigo nesta hora tão difícil, e nem família mais pura e genuína do que a minha! Que Deus vos recompense por mim com o melhor, e eu estou certo disso! Eu já vos permiti que se fossem todos, e vós sois livres para fazê-lo sem nenhuma censura de minha parte, e esta noite é propícia e vos protegerá. Fazei dela a sua aliada”. Nisso, seus irmãos, seus filhos, seus sobrinhos e os filhos de Abdullah Ibn Jafar, seu primo, disseram-lhe: “Jamais faremos isso, e nós te defenderemos com todas as nossas forças, nossas fortunas e nossas famílias. E lutaremos ao teu lado até o fim! E que Deus desgrace a vida depois de ti!”

Em seguida, Moslem Ibn Aussajat tomou a palavra dizendo: “Se te abandonamos como prestaremos contas a Deus por não defender o Seu Direito?! Por Deus, que eu atravessarei a minha espada em seus peitos e lhes vibrarei a minha lança enquanto puder mantê-la em minhas mãos, e se não tivesse armas eu os apedrejaria! Em nome de Deus que não te abandonaremos, para que Ele saiba que respeitamos a ausência de Seu Profeta em vossa pessoa! Por Deus! Se eu soubesse que posso morrer e renascer, e que isto venha a ocorrer por setenta vezes, eu não te abandonaria em nenhuma até que, depois de ti, que a morte venha me encontrar! E como não faria isso, se a morte é uma só e depois dela virá a honra imorredoura?!”

O Imam Al-Hussein (A.S.) recebeu o ultimato na tarde do nono dia do mês de Muharram do ano 61 Hijrita (683 a.D.) que dizia o seguinte: “Ou a obediência e a submissão, ou a luta!” O Imam (A.S.) pediu um tempo até a noite, para que pudesse cumprir suas obrigações religiosas e decidiu lutar no dia seguinte.

Na manhã seguinte, Al-Hussein (A.S.) preparou-se para a luta com seu reduzido pessoal, que contavam cerca de noventa pessoas, sendo que, dos quarenta que vieram com ele, trinta eram soldados do exército inimigo que se uniram a ele, e o restante eram de Bani Hachem, seu filho, seus irmãos, sobrinhos e primos. Organizaram-se em um só batalhão, diante do enorme exército omíada, e mesmo assim, se iniciou a luta desigual.

A batalha durou da manhã até o meio-dia, e o Imam (A.S.) foi imolado juntamente com todos os jovens hachemitas, dentre os quais havia duas crianças assassinadas, filhos do Imam Al-Hussein (A.S.).

Ao término da luta sangrenta, o exército omíada avançou sobre o acampamento do Imam (A.S.), incendiando suas tendas e, diante das mulheres e crianças, deceparam as cabeças dos mártires, roubando-lhes tudo, inclusive roupas, deixando-os totalmente nus e seus corpos estendidos e espalhados no campo da batalha, sem se darem ao trabalho de enterrá-los. Em seguida, arrastaram consigo as mulheres da casa do Imam Al-Hussein (A.S.), suas esposas e filhas, sem nenhuma proteção, levando consigo as cabeças decepadas de suas vítimas. Entretanto, havia poucos homens entre os prisioneiros, dentre os quais se encontravam Ali Ibn Al-Hussein (A.S.), filho do Imam Al-Hussein (A.S.); Mohammad Ibn Ali, filho de quatro anos de Ali Ibn Al-Hussein (A.S.); Al-Hassan Al-Muthanna, filho do 2º Imam Al-Hassan Ibn Ali (A.S.) e genro do 3º Imam Al-Hussein (A.S.), o qual foi gravemente ferido, e que, quando iam decapitá-lo ainda vivo um dos emires influentes dos omíadas intercedeu por ele, salvando-o da morte, e outros prisioneiros, os quais foram levados para Kufa, no Iraque, e de lá, seguiram para Damasco, na Síria, onde se encontrava a sede central do Califado Omíada, sob o governo de Yazid Ibn Muawiya.

E o acontecimento sinistro da batalha em Karbala foi desmascarado, desmoralizando seus autores, Yazid Ibn Muawiya e Obaidallah Ben Ziad, através dos discursos pronunciados pelos prisioneiros, enquanto eram arrastados de cidade em cidade entre Kufa e Damasco, destacando-se a filha do Príncipe dos Crentes, Zeinab Bint Ali (A.S.), e o 4º Imam Ali Zein Al-Abidin (A.S.), os quais divulgaram corajosamente a terrível sina que se abateu sobre eles. Dessa forma revelando as más intenções e a má índole de Bani Omaia, vindo à tona todas as artimanhas de Muawiya, praticadas durante o seu longo califado, e as práticas do devasso e libertino Yazid, seu filho, o que fez com que muitos de seus assessores e auxiliares os repudiassem e anulassem os acordos de lealdade e fidelidade aos omíadas.

A tragédia de Karbala foi um fator decisivo que apressou a queda do governo dos omíadas, influindo no assentamento dos princípios xiitas, trazendo como consequência uma série de guerras sangrentas que duraram doze longos anos. Era uma sequência de levantes e escaramuças das quais não escapou nenhum dos que participaram do assassinato do Imam Al-Hussein (A.S.) e seus amigos, como forma de vingança e revanche.

Não há dúvida de que aqueles que pesquisaram sobre a história das biografias do Imam Al-Hussein (A.S.) e do facínora Yazid, e, dos acontecimentos da época, e meditaram com minúcia sobre as questões, acabaram chegando a uma mesma rota que é o assassinato do Imam Al-Hussein (A.S.), e que o resultado de um juramento de lealdade a Yazid é o mesmo que profanar as proibições impostas pelo Islam, e com isso, o Imam jamais concordaria, porque Yazid não respeitava os dogmas do Islam, buscando sempre a destruição dos estigmas religiosos e o aniquilamento das Leis Islâmicas, sendo conhecido por seu mau caráter e instintos perversos, sempre entregue aos vícios, à luxúria e ao alcoolismo.

Entretanto, seus ancestrais respeitavam, ao menos aparentemente, os estigmas doutrinários e não os contrariavam, preservando ao menos as práticas religiosas, chegando inclusive a acatar o Profeta (S.A.A.S.) e demais líderes e chefes religiosos, os quais tinham uma posição venerável.

Daí se esclarece sobre a convicção de alguns comentaristas e intérpretes dos acontecimentos históricos, os quais aludem que Al-Hassan e Al-Hussein eram dotados de características distintas: Al-Hassan era amante da paz, ao contrário de seu irmão Al-Hussein, que se inclinava para as guerras e as lutas, porquanto o primeiro optou pela reconciliação com Muawiya apesar de possuir um Exército composto por quarenta mil soldados, enquanto o segundo, Al-Hussein, se dispôs à luta contra Yazid com aproximadamente quarenta homens apenas. Consequentemente, isto acabou evidenciando a debilidade desta opinião ou interpretação, pois nós observamos que Al-Hussein (A.S.), que jamais se submetera ao governo de Yazid e seu pai Muawiya, viveu com seu irmão al-Hassan (A.S.) durante os longos dez anos do Imamato do primeiro, sob o califado de Muawyia, sem no entanto declarar guerra ao mesmo. E não há dúvida que Al-Hassan (A.S.) e Al-Hussein (A.S.), se quisessem guerrear contra Muawiya, nada os impediria de fazê-lo na ocasião, porém, ambos os irmãos sabiam que uma guerra como esta não beneficiaria em nada o Islam, e não teria utilidade diante da política de Muawiya, o qual se considerava um dos Companheiros (Sahaba) do Profeta (S.A.A.S.), o escriba das Revelações e preservador do direito dos crentes ou coisa parecida, pelo que tomou isso como meio e mediação.

Por outro lado, Muawiya tinha condições e poder de mandar matar a ambos, e ainda pelas mãos dos que eram bem próximos aos dois irmãos, e depois, mostraria publicamente indignação, pesar e tristeza, tal como o fez com o 3º Califa Othman Ibn Affan, a fim de fomentar a intriga contra o 4º Califa Ali Ibn Abi Taleb (A.S.).

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