A Elite econômica Palestina: um dos empecilhos para a própria Palestina 

Sim, os palestinos têm uma elite econômica. Nem todo palestino é refugiado e vive na miséria.

Os moradores originais de Ramallah, Nablus, Tulkaram, El-Khalil (Hebron), Qalqilyah, El Bireh, Yatta, etc. têm terras com olivais, videiras e plantações diversas, formando uma feliz classe média. É verdade que os judeus sionistas usurparam enormes pedaços dessas terras para construírem seus assentamentos. Mas também é verdade que muitos desses palestinos têm seus negócios prósperos nessas cidades e muitos deles associados aos sionistas.

Um restaurante de luxo de cinco estrelas, o Saraya AlBal abriu em al-Bireh, uma cidade palestina adjacente a Ramallah no centro dos territórios, 15 km a norte de Jerusalém.

Por outro lado, os palestinos da diáspora, que migraram para os Estados Unidos, Brasil, Canadá, Colômbia, Europa, etc. logo após a “nakba” – a tragédia – de 1948, formam hoje, em grande parte, uma elite de milionários. Há alguns palestinos com gigantescos prédios construídos nas cidades onde residem na diáspora, inclusive aqui no Brasil. Esses milionários transferiram grande parte de suas fortunas para as cidades palestinas de origem. Lá construíram mansões hollywoodianas, abriram bem-sucedidos negócios, muitas vezes tendo os judeus sionistas como sócios, clientes ou fornecedores. O próprio presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e seus “ministros”, têm afortunados negócios com ricos empresários israelenses. Interesses de dezenas e centenas de milhões de dólares. Só Allah sabe o que passa por baixo da mesa.

Por que estou falando dessa elite? Ocorre que vários analistas árabes e estrangeiros, que defendem a criação de um Estado Palestino em território unido, entre a Cisjordânia e Gaza, tendo Jerusalém Oriental como capital, afirmam que o malfadado “Acordo do Século” só beneficia Israel e dá aos palestinos um paiseco dividido em cantões, sem Jerusalém Oriental, sem exército, sem aeroporto, sem porto, totalmente dependente do regime sionista. Os intelectuais, políticos e analistas da linha antagônica ao regime sionista concluíram que os quarenta anos de conversações não levaram a nada. Pelo contrário, na medida em que o tempo foi passando, os palestinos foram perdendo território e direitos. Portanto, não há mais lugar para conversações. A única solução seria a resistência armada. O que foi tomado pela força só é recuperado pela força. Os palestinos refugiados, aqueles que perderam suas terras, que tiveram suas aldeias e suas casas destruídas, aqueles que foram expulsos em 1948, em 1967 e nos anos seguintes, mesmo aqueles que moram no que resta da Palestina, mas estão oprimidos pelos sionistas, clamam por um levante armado. Vivem atormentados com a possibilidade de que a qualquer hora seriam expulsos de suas casas para dar lugar a judeus russos recém vindos à Palestina. Exigem que a Autoridade Nacional Palestina seja dissolvida e o presidente Mahmud Abbas vá para casa brincar com os netos. Ele e sua entourage. E a força policial palestina leve suas armas e se una aos grupos de resistência.

Mas será que essa elite acima mencionada, que goza de privilégios e tem relações íntimas e sólidas com os sionistas, vai topar uma revolta armada? De jeito nenhum. Não se joga pela janela um conforto adquirido, uma riqueza acumulada através de negociações com o inimigo por motivo nenhum. Será que aquele imigrante palestino milionário que está no Brasil há décadas, vai ficar indiferente ao ver sua mansão em Annaba ser destruída pelos foguetes da resistência ou dos israelenses? Ou ter a sua próspera empresa em Ramalla colapsar em consequência de uma guerra? Não, absolutamente não.

Portanto, um dos maiores empecilhos, senão o maior, para um levante armado na Palestina, é a própria elite palestina. Não querem abrir mão do status quo confortável, com seus negócios de vento em popa e seus filhos frequentando as melhores universidades. Em fins da década de setenta, enquanto passeávamos em Alepo na Síria, meu pai apontou para um gigantesco e luxuoso edifício residencial, com suntuosas lojas no térreo. Ele disse que o prédio pertencia a um palestino. E me faz a pergunta para a qual só há uma resposta: - Você acha que esse homem vai um dia voltar para a Palestina ou vai permitir que seus filhos vão lutar pela libertação da Palestina? Fiquei calado.

Por Gilberto Feres Abraão

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