Heidegger e a Revolução Iraniana #1

Primeira parte da tradução do artigo "Heidegger’s ideas that have grown on Iranian soil: why the German philosopher has become a mainstream thinker for the socio-political thought of the Islamic Republic of Iran?", de autoria de Mitev Vladimir.

Por Mitev Vladimir

Tradução de Carlos Alberto Sanches


Resumo:


Martin Heidegger critica a perda da verdade do Ser no mundo ocidental como um resultado do desenvolvimento tecnológico. Define um discurso de Autenticidade, o qual busca por vitalidade na tradição. Heidegger anuncia o fim da Metafísica, a qual entende como tendência objetificadora. Propõem a superação da Metafísica através de um retorno àquilo que os Gregos uma vez fizeram - simplesmente deixar as pessoas des-velarem-se e manifestarem a si mesmas sem torná-las num objeto de pensamento.


Ahmad Fardid é o primeiro comentador de Heidegger no Irã. Fardid é autor do termo “Ocidentose” (Gharbzadegi), com o qual nomeia a alienação dos iranianos de suas raízes e a perda de sua subjetividade em face do Ocidente.


O ensaio de Jalal Al-e Ahmad, “Ocidentose: uma Praga do Ocidente” (1962) é um ensaio cujo valor social é global. Ele traça o caminho para a busca de uma modernidade local e nativista no Irã, e expressa a insatisfação quanto ao papel que o Ocidente prescreve aos países do Terceiro Mundo - uma periferia explorável.


Ali Shariati faz do Islam uma religião para mobilização das massas e um esforço para o retorno às raízes, o qual via não como um passo para trás, mas como o salto para uma modernidade harmonizada com a essência iraniana. Shariati critica o “cosmo materialista”, onde o “homem se torna um objeto”, enquanto vê no Islam “um vínculo fundamental, uma relação existencial (entre o homem e o mundo)”. Assim é como o pensador iraniano reproduz literalmente as ideias de Heidegger, que sentia em seu próprio tempo que a retirada da Religião da vida pública deixa o homem sem defesa diante da lógica do mundo da máquina, no qual o Ser está submetido a vontade de um poder assomado sobre o homem e a vida.


Após a vitória da Revolução Islâmica, que prometeu reconectar os iranianos com sua verdadeira essência, Reza Davari, ecoando Heidegger, suplica pelo retorno da aliança com Deus (o Absoluto, a Verdade), do qual os iranianos haviam se apartado nos tempos de Ocidentose. Este retorno tem lugar através da negação da subjetividade mundana (o ego), e anseia pela conversão do homem em um realizador da subjetividade celestial.


De acordo com Bijan Abdolkarimi, a grande influência de Heidegger no Irã se deve a duas razões básicas: ele é o mais forte e profundo crítico do Ocidente e ao mesmo tempo um defensor da tradição.


Introdução: O Irã Encontra o Ocidente Através de Heidegger


O ritmo da vida atual, o processo corrente de globalização, a crescente sensação de insegurança e crise, tudo isto coloca em questão o problema da identidade (a resposta para a questão “Quem sou eu?”) e da subjetividade (“O que sou eu em relação a alteridade?”). Várias tentativas de construir sentido estão constantemente sendo feitas. Seu sucesso ou resiliência é determinado por sua capacidade de passar no teste do tempo e dos níveis cada vez maiores de niilismo.


Tal como muitas invenções humanas, o niilismo é uma espada de dois gumes. A criação destrutiva, declarada como um dos princípios fundadores da civilização ocidental por Josef Schumpeter, é um exemplo do lado positivo da negação. É o motor do desenvolvimento e crescimento, permitindo ao homem lançar-se numa jornada para tornar-se si mesmo e realizar seu projeto de vida enquanto se despede de seu passado de não-ser. Mas niilismo é também uma arma de destruição em massa, erodindo civilizações inteiras que valorizavam a essência sobre o acaso e a hierarquia sobre o caos da liberdade. Por último, ainda, o niilismo em sua encarnação má poderia tornar-se um parceiro da misantropia e da resignação, provocando uma derrota da identidade em um mundo onde a competição e a luta por realização crescem indefinidamente.


Alguns dos grandes esforços para responder ao desafio do niilismo são as ideias do filósofo alemão Martin Heidegger. Heidegger tem um lugar importante no pensamento iraniano moderno, pois deu aos povos não-ocidentais instrumentos filosóficos e argumentos para desenvolverem uma modernidade autêntica e nativista. Por definição, isto superaria o niilismo ou o vácuo de Norma e Verdade que é comumente associado ao Ocidente.


Este artigo tenta entender melhor a dimensão da influência de Heidegger no Irã.


Ao contrário do afirmaria o senso comum, uma grande parte das ideias da filosofia iraniana e ideologias nos séculos 20 e 21, incluindo aquelas anti-ocidentais, parecem ser de origem ocidental. Então, a dicotomia Ocidente-Oriente, ou Ocidente-Irã, precisa ser redefinida. Tendo sido tratado como periferia pelo Ocidente por longo tempo, o Irã e seus pensadores chegaram à sua Alteridade no contraste com América e Europa através dos críticos [“internos”] destes.

Martin Heidegger é simultaneamente um crítico do Ocidente e um advogado da tradição, logo, capturou uma parte importante da imaginação iraniana. Seu discurso da Autenticidade concede aos povos orientais um senso de enraizamento e pertencimento. Ao mesmo tempo, isto é um antídoto para um indesejado estado de alienação de um indivíduo ou povo de sua identidade. É exatamente este discurso que modelou os movimentos oposicionistas dos anos 60 e 70 que realizaram a Revolução Islâmica. É também um discurso que provê o estado iraniano moderno de uma espinha dorsal intelectual e ideológica em seus assuntos com o mundo externo.



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