Jesus, o palestino!


Na terra da Galiléia, região mais pobre da Palestina, então sob o domínio do Império Romano, nascia Jesus Cristo, há mais de dois milênios. A Palestina fazia parte da Síria Histórica, região que hoje engloba, também, os estados independentes do Líbano, Jordânia e a própria Síria. Dado isso, podemos afirmar que Jesus nasceu na periferia da periferia. A Palestina era uma província periférica o Império Romano. E a Galiléia era uma região periférica desta província.


Jesus tinha o hábito e os modos simples dos galileus, que contrastavam com os hábitos e modos das principais cidades da Palestina, como Jerusalém. Até mesmo o idioma que o Jesus usava para comunicar-se era a forma popular do língua aramaica que vigorava na época. Isso causava um escândalo entre os sacerdotes judeus que usavam formas rebuscadas e eruditas do hebraico, enquanto o “rabi” Nazareno comunicava-se de forma simples e usando linguagem popular.

O povo da Palestina na época de vida de Jesus vivia sob dois jugos, que causavam muito sofrimento e dor às pessoas. O jugo do Império Romano que que cobrava altos impostos a uma população já em situação nada próspera, e o jugo dos sacerdotes judeus, que além de exercerem um ferrenho domínio moral, intelectual e religioso, exigiam ofertas em dinheiro do povo já assolado pela pobreza.


Neste cenário em que a exploração externa imperial e a interna sacerdotal açoitavam o lombo do sofrido povo da Palestina, surgiu Jesus. Em relação ao Império, ele preferiu não encarar de uma forma direta, mas são famosas as suas suas citações: “dai a César o que é de César, e dai a Deus o que é de Deus”; “o meu reino não é deste mundo”. Quanto aos guardiães da religião judaica, ele foi extremamente mais severo, acusando-os de hipocrisia e podridão em mais de uma situação, e encarando-os de frente, de uma forma altiva. O episódio em que ele levantou o azorrague contra os mercadores do templo é um claro exemplo da posição de Jesus contra a religião judaica oficial predominante na época. E a sua famosa profecia sobre o templo de que “não sobrará pedra sobre pedra”, viera a concretizar décadas depois. Os seus embates com o grupo dos fariseus foram e são emblemáticos até hoje.

Jesus é o maior dissidente da religião judaica da História; portanto qualificá-lo de “judeu” contém um equívoco gritante. A negação do judaísmo e todas as suas instituições sacerdotais e religiosas rendeu-lhe a inimizade mortal dos clérigos judeus. O único adjetivo que caracteriza Jesus de uma forma justa e correta são os adjetivos relativos ao espaço que foi palco de sua revolucionária mensagem. Portanto, Jesus é o Nazareno, o Galileu e, por consequência, o Palestino, mas nunca o judeu!

Muito mais do que líder religioso no sentido estrito e ritualístico do termo, Jesus foi um dos maiores libertadores e revolucionários da História. A sua mensagem veio trazer libertação ao povo oprimido e sobrecarregado na Palestina e no mundo daquela época e de todas as épocas. Ele enfrentou audaz e nobremente os dois sistemas que aliavam-se na opressão e exploração do povo palestino: o Império Romano e a Religião Judaica.



Jesus Cristo, obra de arte do artista palestino Sliman Mansour


Dados estes fatos, e trazendo a História um pouco para atualidade, fazemos alguns questionamentos. Se Jesus hoje se fizer carne e osso e vier a pregar a sua mensagem, de que lado ele ficaria? Ficaria do lado do imperialismo com suas múltiplas faces e formas, desde o neoliberalismo até o capitalismo selvagem, até a invasão de países com matança dos povos, ou ficaria do lado das massas oprimidas exploradas de todo o mundo?

De que lado Jesus ficaria, do lado das instituições religiosas (muitas usam o seu nome) que vivem a pregar impostura e a explorar os mais humildes com dízimos, ofertas e tributos? De que lado Jesus ficaria, do lado dos sionistas judeus que ocuparam e usurparam a Palestina, massacrando e expulsando o seu povo, ou do lado do povo palestino que há mais de sete décadas sofre as consequências catastróficas da Nakba?

Jesus foi, é e sempre será palestino! Jesus foi, é e sempre será um homem do povo, aliado, libertador e líder dos oprimidos, sobrecarregados e sofredores.

Texto de:Bilal Ramez Bakri


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do CCIH

50 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo