Um muçulmano, negro, brasileiro e nordestino, vê a unidade islâmica no Brasil.

Atualizado: Out 20

Um muçulmano, negro, brasileiro e nordestino, vê a unidade islâmica no Brasil.

Por: Eduardo José Santana de Araujo


Um primeiro olhar sobre a realidade, sem floreios, no mundo atual nos explicita um quadro de escassas perspectivas, mesmo ainda estando o lema “globalização” soando firme em bocas de pensamentos humanistas como fator de melhor compreensão sobre os rumos que o mundo de forma “parceira” deve seguir. O fato que se apresenta palpável diante de nós, porém, não nos parece moldado com vestes de afeição e diálogo, pois sabe-se que forças desprovidas de humanidade impõem sobre todos o desapego pelo que é dialógico e interativo.


O ato de dialogar para muitos pensadores não corresponde, todavia, a um plano voltado a minimizar entraves sociopolíticos, mas, no sentido expresso do termo, à necessidade vital para existência dos diversos grupos humanos e da própria humanidade.


“O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial” (FREIRE, 1987).

O crescimento da comunidade muçulmana no Brasil – fenômeno inevitável intensificado com a globalização, também protagonizado por instituições islâmicas cada vez mais ativas no uso de métodos dialógicos que servem a uma melhor compreensão do status cultural dos muçulmanos brasilis –, tem peculiaridades que muitos brasileiros praticantes do Islam, creem, já deveriam estar superadas, ou em vias de sê-lo.


Ainda intriga fortemente a muitos o fato de por mais que o livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, a tão aclamada Sunnah do nosso profeta Muhammad, e os ensinamentos dos Ahlul Bait (familiares do profeta), sempre conclamarem à unidade, haver um insistente, danoso, anti-islâmico, e, por que não dizer, antirrepublicano, discurso que prega segregação na sociedade muçulmana brasileira.


Mais inquietante ainda é saber como incorporamos facilmente a retórica que defende a divisão entre xiitas e sunitas, apreciada e difundida na mídia e universidades ocidentais, mesmo tendo a clara compreensão de tratar-se, na realidade, d´uma imposição ideológica que, sabe-se bem, fere originais princípios islâmicos.


Ora, ser muçulmano é saber claramente que a proclamação da nossa identidade só convém se alinhada com ideias de coesão, união e respeito pelo outro, seja quem for. A história do profeta Muhammad mesmo antes da sua missão profética é a manifestação em si do humanismo no sentido mais pleno do termo.


O alegado acima pode se crer indiscutível, quando qualquer leigo, eis o meu caso, é capaz de identificar rapidamente textos islâmicos que servem para desqualificar paradigmas separatistas. Vejamos, para ter-se exemplo, algo que consta no Alcorão sagrado: “Senhor nosso! E faze de ambos de nós submissos para Ti, e faze de nossa descendência uma comunidade submissa para Ti; e ensina-nos nossos cultos e volta-Te para nós, remindo-nos. Por certo, Tu, Tu és O Remissório, O Misericordiador” (capítulo 02, “A Vaca”, versículo 128); “E que seja formada de vós uma comunidade, que convoque ao bem, e ordene o conveniente, e coíba o reprovável. E esses são os bem-aventurados” (capítulo 03, “Al´Imram”, versículo 104).


Não é necessário ter vivência islâmica para compreender mesmo que superficialmente tais ditos. Melhor dizendo, qualquer ser humano, mesmo um ateu, independente da sua língua, da sua origem, do seu nível de cultural, compreenderá que tais palavras corânicas servem relevantemente ao desejo de um sociedade mais unida e cooperativa, isso se tratar-se de alguém com postura progressista e “humanizante”.


Tranquilamente, mesmo buscando histórias básicas, se perceberá que a performance moral do profeta Muhammad durante toda a sua missão profética e mesmo antes dela, foi construtora de teia ética que não pode ser dissolvida por discursos que louvam a divisão da Ummah, “comunidade dos fiéis”, nos parecendo preciosismo citar passagens na qual o mesmo se posiciona com veemência pela unidade humana, sendo ele reconhecido como um diplomata do amor e do acolhimento.

Nem mesmo é necessário por parte de um(a) desconhecedor(a) da história da sociedade muçulmana árabe qualquer esforço para chegar à tal constatação, já que o tema pode ser sintetizado em trecho destacado naquele que é reconhecidamente considerado o seu último discurso, o “sermão de despedida”, segundo fontes de várias escolas filosóficas islâmicas: “Aprendam que cada muçulmano é irmão de todo muçulmano e que os muçulmanos formam uma fraternidade. Nada que pertence a um muçulmano será legítimo ao semelhante muçulmano, exceto o que for dado livremente e voluntariamente. Portanto, não sejam injustos com si mesmos” (Iqara Islam, 2020).

Em outro momento do mesmo sermão o profeta Muhammad legou: “No Islam as pessoas são iguais, todos são de Adão e Eva, o árabe não é mais virtuoso do que o não árabe, e o não árabe não é mais virtuoso do que o árabe, somente pelo temor a Deus (...)” (Al´Musaiu, 2006), fala que se equipara facilmente às melhores tradições democráticas ocidentais.

No Brasil, lamentavelmente, nos deparamos diariamente com o discurso de unidade, inter-religioso ou não, provindo de atores muçulmanos, ao mesmo tempo que somos surpreendidos por posturas, muitas das quais institucionais, que reinventam a tal “separação entre muçulmanos”.


Nos meus primeiros anos de muçulmano revertido, como um seguidor de escola sunita, finais da década de 1990 e inícios da de 2000, me chamava a atenção falas discriminatórias e, até, marcadas por traços de ódio contra os seguidores dos Ahlul Bait, comumente chamados de xiitas, algo angustiante, me levando a leitura mais aprofundada sobre a tal cisão islâmica, ocorrida nos começos do califado omíada.


Em todas as partes do mundo, a curiosidade dos seguidores de escolas filosóficas sunitas sobre o xiismo em geral é comum, mas, percebe-se facilmente, esbarra em evidentes protecionismo e incapacidade didática, às vezes, forçada, por parte de clérigos e lideranças, impedindo que a construção do saber e a consequente relação amistosa, elemento do saber básico e de princípios fundamentais do dogma e prática islâmicos, sequer se fomente nos espaços formais frequentados pelos muçulmanos, e, muitas vezes, até nos informais.


Após anos aprendendo, praticando e divulgando o Islam, não sou capaz de afirmar quando e onde a minha curiosidade me levou naturalmente ao xiismo, transição que lançou-me, no tocante ao diálogos xiita-sunita, num campo de ações e ideais distintas das vividas durante a minha caminhada como muçulmano dito sunita, já que desde os primórdios das minhas relações com cidadãos xiitas, percebi que por parte de suas organizações, seus clérigos e membros dos espaços sacros, a busca pelo diálogo e pela interatividade sempre foi fomentada, defendida, planejada e difundida.


O mais interessante é que tal status personalis que preza pelo sentido real do Islam, ou seja, o de construir uma Ummah acoplada e cooperativista, verificado em todos os espaços xiitas do Brasil, se instrumentaliza não apenas num âmbito nacional, mas como uma filosofia global que tem na República Islâmica do Irã um artífice poderoso e influente.


Num artigo publicado na página on line da agência de notícias Pars Today é citada a criação da Semana da Unidade Islâmica, que partiu do pai da Revolução Islâmica de 1979, Vossa Eminência o Ayyatullah Khomeini, a iniciativa de criar a Semana da Unidade Islâmica, que, com o passar dos anos se transformou numa conferência mundial que reúne representantes clericais e leigos de todo o mundo. O objetivo nasceu justamente da tentativa de harmonizar o debate existente entre sunitas e xiitas sobre a data precisa de nascimento do Profeta Muhammad (Pars Today, 06/12/2016).

“O Imam Khomeini foi aliás um dos maiores reformadores que a Ummah islâmica tinha visto. Como devoto servidor do Profeta do Islã e dos infalíveis Ahlul Bait não poupou esforços para eliminar as divisões entre os muçulmanos e unir-se como uma unidade islâmica monolítica. Ele sempre enfatizaria sobre a prática e o comportamento do Profeta e os versículos do sagrado Alcorão neste sentido, como no versículo 103 da Surata Al´Imran, que chama os crentes segurar a ´corda divina´, sem a qual a conversa sobre a unidade entre os muçulmanos não faz sentido” (Pars Today, 06/12/2016).

O legado do Imam Khomeini foi incorporado ao modus da República Islâmica e institucionalizado de tal forma, que todos os anos, neste será no período de 29 de outubro a 03 de novembro, o Ayyatullah Seyed Ali Khamenei, digno sucessor do Imam Khomeini, preside a já citada Conferência Internacional da Unidade Islâmica, sediada no Irã, considerando ele ser o tema de uma relevância ainda incompreendida, capaz de erigir desenvolvimentos no seio da comunidade muçulmana mundial, e, como consequência, para toda a humanidade, devendo o seu debate ser estendido a todos os continentes, e aos não-muçulmanos.


O citado acima nos conduz a um tema ainda mais marcante, e muitas vezes apresentado de forma distorcida no ocidente, o trato da sociedade islâmica institucionalizada com aqueles(as) que não praticam o Islam, algo que pode facilmente ser analisado à luz do sagrado Alcorão: “Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser, do qual criou a sua companheira e, de ambos, fez descender inumeráveis homens e mulheres. Temei a Deus, em nome do Qual exiges os vossos direitos mútuos e reverenciai os laços de parentesco, porque Deus é vosso Observador” (capítulo 04, An´Nissa, versículo 01).


O Islam, como sistema sociopolítico estruturado há séculos, e que tem para os chamados xiitas um modelo devidamente consolidado na já mencionada República Islâmica do Irã, é uma forma de vida que protege os direitos de todos, tendo jurisprudências consolidadas e específicas que resguardam os praticantes de outras religiões e crenças. Como num sistema de vida deste nível podemos tolerar imposições que maculam não só o modo de vida das comunidades muçulmanas, mas a estrutura orgânica matriz da crença e do saber islâmico?


A crise do republicanismo e da democracia vivenciado nos dias atuais no nosso país podem (na verdade) se transformar em fator motivacional para buscarmos meios humanisticamente válidos para reeducar o nosso ethos no caminho de uma sociedade progressista, e tendo uma Constituição sólida como a nossa é incompreensível que ainda tenhamos dificuldade para articular mecanismos voltados para tanto.


Os críticos do Islam, aparentemente de forma desavisada, erguem alegações sobre a incapacidade de adaptação dos muçulmanos a um quadro sociopolítico ocidental e humanista, algo que efetivamente se representa um ledo e desastroso engano, pois o Islamismo, institucionalizado habilmente por Muhammad, o profeta divino e mensageiro de Deus, detém ferramentas e ditames progressistas e libertários ainda desconhecidos no ocidente, tendo sido muitos (inclusive) elementos de formação da sociedade ocidental.


Hoje, é clara a mobilização de muçulmanos fieis à causa islâmica no tocante à construção de diálogos mais largos com a sociedade civil brasileira em todas as suas vertentes, e quando o fazem nada mais apresentam do que o Islam propriamente dito, sem floreios. Conhecidas forças externas e internas reacionárias, “conservadores”, que trabalham em prol do enfraquecimento de uma sociedade global dinâmica em termos cooperativistas, trabalha também para a divisão dos muçulmanos no Brasil; começam, porém, a perceber que adversários poderosos se organizam no sentido contrário.


Fontes:

- Al´Musaui, Sayyed Hashem. O Sistema Social no Islam / Sayyes Hashem Al-Musaui; elaboração e supervisão Sheikh Taleb Hussein Al-Khazraji; 01ª ed. São Paulo: Centro Islâmico no Brasil, 2006 (Da Orientação do Islam, v. 10).

- FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

- Nasr, Helmi. Tradução do sentido do nobre Alcorão para a língua portuguesa. 03ª ed. São Paulo: Islam para Todos, 2020.

- Pars Today. Disponível em: https://parstoday.com/pt/radio/world-i24639-pontos_de_vista_do_imam_khomeini_sobre_unidade_islâmica.

- Iqara Islam. Disponível em: https://iqaraislam.com/ultimo-sermao-do-profeta-muhammad.


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